Monday, December 04, 2006

Nativa

Sorriste-me junto ao rio quando de febre eu morria
Entre delírios palustres e suores me consumia
Eu ardia em fogo lento quando me deste agasalho
Passaste em mim um unguento muito mais fresco do que orvalho

Redimiste-me nativa das penas do meu degredo
Mantiveste a minha alma viva por ti voltei a ser ledo
Adorei deus em heresia dei-lhe outra face sagrada
E à nossa volta no chão foi crescendo uma erva amestiçada

Deste-me conchas do mar
E um sorriso na boca
E eu nada tinha para dar
Que se comparasse em troca

Dei-te os ferros da razão dei-te o valor do metal
O castigo e o perdão e a gramática do mal
Dei-te a dor no crucifixo dei-te a cinza do prazer
Se não fosse eu era outro e antes eu do que um qualquer

Dei-te a minha língua-mãe
Nas tardes desse vagar
O meu bem mais precioso
Que eu tinha para te dar

E esse meu falar antigo
De branco fez-se mulato
Um dialecto crioulo
Um viço novo no mato


Nativa, Rui Veloso

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